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Por que gostamos de personagens moralmente ambíguos? O fascínio pelos anti-heróis

Por que anti-heróis e vilões fascinantes nos prendem? Entenda a psicologia dos personagens moralmente ambíguos, com pesquisas e exemplos literários.

Johana P. Carriel · outubro 13, 2026

Você conhece o tipo. Ele entra na história carregando um passado nebuloso, uma coleção de decisões péssimas e, por algum motivo, uma legião de leitores dispostos a defender sua honra nos comentários. O personagem mente, trai, manipula e ainda recebe montagem com música romântica. Se o currículo aparecesse num aplicativo de relacionamento, a recomendação seria bloquear e seguir a vida. Num romance, porém, viramos a página para descobrir o que fará em seguida.

Por que gostamos de personagens moralmente ambíguos? A resposta não é que todo leitor deseja reproduzir comportamentos perigosos. Muitas vezes, somos atraídos pela curiosidade de entender motivos, contradições e escolhas que, fora da ficção, rejeitaríamos sem cerimônia. A literatura oferece distância para observar conflitos difíceis, enquanto a narrativa nos convida a entrar na cabeça de quem não cabe nas etiquetas de herói e vilão.

Essa pergunta nasceu de uma conversa no Instagram de Johana P. Carriel: por que nos atraem personagens que não são heróis nem vilões? A resposta merece mais do que o velho diagnóstico de internet, segundo o qual gostar de um personagem problemático significa querer um relacionamento problemático. A vida humana já é suficientemente complicada sem que o algoritmo decida nossa ficha psicológica a partir da estante.

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O que são personagens moralmente ambíguos?

Um personagem moralmente ambíguo reúne qualidades, motivações e ações que dificultam julgá-lo como inteiramente bom ou mau. Pode demonstrar coragem e egoísmo, lealdade e crueldade, generosidade e desejo de vingança. Suas atitudes exigem interpretação: o leitor pode compreender sua lógica sem concordar com o resultado.

Nem todo anti-herói é um vilão romântico e nem todo vilão é anti-herói. O anti-herói costuma ocupar o centro da narrativa sem encarnar as virtudes tradicionais do herói, como altruísmo irrestrito, bravura impecável e coerência moral. Já o vilão atua frequentemente como força de oposição, embora narrativas contemporâneas também lhe concedam protagonismo. A classificação importa menos que uma pergunta: como a história constrói nossa relação com aquele sujeito?

Krakowiak e Oliver investigaram empiricamente personagens bons, maus e moralmente ambíguos. Em seu estudo, figuras ambíguas foram menos apreciadas do que personagens bons, mas conseguiram provocar envolvimento, suspense e prazer narrativo em níveis comparáveis. Tradução livre para a vida de leitora: você pode desaprovar o comportamento e, mesmo assim, achar impossível abandonar a história.

O mistério moral é um convite à curiosidade

Nosso cérebro adora uma explicação. Diante de um gesto bondoso, às vezes a história parece resolvida. Diante de alguém que salva uma pessoa num capítulo e a prejudica no seguinte, queremos saber qual peça está faltando. Esse vazio de informação funciona como motor narrativo: o personagem se torna uma pergunta ambulante.

Uma pesquisa publicada em 2023 reuniu cinco experimentos, com 2.429 participantes, sobre curiosidade por pessoas percebidas como boas, más ou ambíguas. Os resultados indicaram interesse especial em entender as razões por trás de comportamentos moralmente negativos ou ambíguos, embora os contextos e medidas variem. O estudo não diz que toda pessoa prefere vilões, nem que curiosidade seja aprovação. Indica algo mais interessante: motivos obscuros merecem investigação.

É por isso que uma personagem perfeitamente previsível pode oferecer conforto, enquanto outra, contraditória, provoca inquietação. Não precisamos amar suas decisões. Precisamos querer decifrá-las. O suspense começa quando percebemos que compreendê-la será mais trabalhoso do que classificá-la.

O perigo literário tem uma porta de saída

Há uma diferença considerável entre sentir tensão enquanto lê e viver sob ameaça. No livro, podemos interromper, fechar a capa, discutir o final e voltar amanhã. Na vida real, ninguém deveria precisar de um marcador de página para escapar de humilhação, coerção ou medo.

Pesquisadores da comunicação e da psicologia estudam essa experiência de entrar mentalmente numa história, muitas vezes chamada de transporte narrativo. Green e Brock demonstraram que a absorção numa narrativa pode influenciar avaliações de personagens e crenças relacionadas à história. O envolvimento não significa que nossas convicções sejam automaticamente substituídas pelo enredo. Significa que a ficção pode reorganizar nossa atenção por algumas páginas.

Outro trabalho, com histórias interativas em que os participantes decidiam se os protagonistas tomariam atitudes mais ou menos violentas, observou que quem escolhia o caminho mais violento tendia a ficar mais satisfeito com a história, embora as mesmas tramas, lidas sem possibilidade de escolha, fossem avaliadas como menos satisfatórias. É um campo de pesquisa específico, que não deve ser usado para concluir que histórias violentas tornam leitores violentos. Sua contribuição aqui é mostrar que o enquadramento e a sensação de agência importam: imaginar não é executar.

Podemos achar fascinante um personagem que jamais convidaríamos para jantar. Na verdade, dependendo do personagem, convém nem informar o endereço.

Identificação não é um contrato de concordância

Existe uma confusão recorrente entre compreender, identificar-se e aprovar. Compreender é perceber as razões de uma ação. Identificar-se é experimentar aspectos da perspectiva de alguém. Aprovar é julgar que aquela ação foi correta. Esses processos podem se relacionar, mas não são sinônimos.

Jonathan Cohen propôs uma definição teórica de identificação com personagens que ajuda a separá-la de outras respostas emocionais do público. Uma investigação sobre a maneira como o público se envolve com o drama também encontrou evidências de que identificação, atribuição de motivos e aprovação moral não precisam caminhar juntas. Numa história bem construída, o leitor pode reconhecer o medo de abandono de um protagonista e, simultaneamente, rejeitar a maneira como ele trata outra pessoa.

Pense em O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Heathcliff é uma figura poderosa justamente porque seus sofrimentos não anulam o estrago que provoca. Reduzi-lo a um príncipe incompreendido empobrece o romance. Reduzi-lo a um monstro sem história também. A literatura mora nessa zona incômoda em que a explicação não absolve.

A pergunta literária produtiva, portanto, não é apenas “você gosta dele?”. É “o que a narrativa faz para que você continue olhando?”.

O anti-herói não nasceu ontem, embora a internet aja como se tivesse inventado o drama

O fascínio por protagonistas contraditórios tem uma história longa. Em O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde trabalha beleza, influência, desejo e degradação moral. Em Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski coloca o leitor diante da racionalização de um crime e de suas consequências psicológicas e éticas. Em O Talentoso Ripley, Patricia Highsmith faz da impostura e da ambição uma engrenagem de suspense.

Esses livros diferem muito entre si. Exatamente por isso são úteis: mostram que personagens complexos não formam uma categoria de personalidade, nem pertencem exclusivamente ao dark romance. Eles atravessam romance psicológico, gótico, policial e clássico literário. O que muda é o pacto que cada gênero estabelece com o leitor.

Quando um livro nos obriga a sustentar duas ideias ao mesmo tempo, “entendo por que fez isso” e “não deveria ter feito”, ele tira nossa leitura do piloto automático. Não é exatamente uma sessão confortável de terapia. É arte, e arte não tem obrigação de servir chá de camomila a cada capítulo.

Por que histórias de anti-heróis podem ser tão envolventes?

Pesquisas de Shafer e Raney sobre narrativas de anti-heróis sugerem que o público desenvolve maneiras de acompanhar protagonistas moralmente problemáticos, e que o julgamento moral não explica sozinho o prazer de assistir a essas histórias. Outros experimentos mostraram que o destaque dado às próprias virtudes ou falhas do público pode alterar sua resposta a personagens bons, maus ou ambíguos. Em outras palavras, o leitor não é uma peça neutra: sua história, seus valores e o contexto de leitura participam da experiência.

O suspense também cumpre papel central. Personagens ambíguos são menos previsíveis: podem escolher o gesto generoso, a vingança ou um terceiro caminho ainda pior. A imprevisibilidade sustenta expectativas e transforma capítulos em pequenas negociações internas. “Só mais um”, dizemos, numa frase que tantas vezes antecede o amanhecer.

Mas complexidade não se resume a crueldade. Um personagem pode ser moralmente ambíguo por hesitar, omitir uma verdade para proteger alguém, priorizar a própria sobrevivência ou agir sob pressões incompatíveis. A boa escrita não precisa colecionar violências para fabricar profundidade. E um trauma na biografia não é uma licença vitalícia para machucar os outros.

E o dark romance? Onde termina a fantasia e começam os limites?

O dark romance explora relações e situações sombrias, por vezes envolvendo poder, obsessão, perigo e transgressão. O rótulo não descreve uma fórmula única: há obras com abordagens muito diferentes, e avisos de conteúdo podem ser importantes para permitir escolhas informadas. Gostar do gênero não é declarar que se aceitaria o mesmo comportamento fora das páginas.

É possível investigar fantasias narrativas sem transformar coerção em ideal de relacionamento. No mundo real, consentimento livre, respeito a limites e ausência de ameaças não são detalhes opcionais. Na ficção, o leitor pode escolher atravessar cenários moralmente desconfortáveis sabendo que está diante de uma construção artística. Isso não torna toda representação automaticamente crítica, nem impede que leitores discordem sobre seus efeitos. Torna o debate mais sério do que a acusação preguiçosa de que “quem lê isso quer viver isso”.

Da mesma forma, o fato de uma obra mostrar um comportamento não implica que o endosse. A pergunta de leitura mais rica é outra: a história reconhece consequências? Que perspectivas silencia? Quem tem poder para escolher? O que o texto pede que romantizemos e o que nos convida a questionar?

Algumas histórias desafiam nossa bússola; outras apenas pintam um comportamento abusivo com uma capa bonita. Distinguir as duas coisas exige leitura crítica, não fiscalização da fantasia alheia. Para reconhecer esses padrões fora das páginas, a Madame já falou sobre manipulação emocional no relacionamento e os sinais que parecem cuidado.

A literatura nos torna mais empáticos? Cuidado com a promessa milagrosa

É tentador dizer que ler personagens complexos automaticamente nos torna pessoas melhores. Seria uma excelente campanha publicitária, e talvez por isso mereça desconfiança. A relação entre ficção, compreensão social e empatia é tema de pesquisa, não um certificado moral entregue a quem termina um romance.

Mar e colegas observaram associações entre exposição à ficção e medidas de habilidades sociais em seu estudo de 2006. Em 2013, Kidd e Castano relataram melhora em tarefas de teoria da mente após leitura de ficção literária em determinados experimentos. Mas tentativas posteriores de replicação trouxeram resultados mistos, inclusive quatro experimentos que não encontraram o efeito imediato previsto. A literatura científica, ao contrário de certos protagonistas, precisa prestar contas das próprias contradições.

A conclusão mais responsável é modesta e valiosa: livros criam oportunidades para observar motivações e perspectivas, mas os efeitos dependem de muitos fatores e não são garantidos. Ler não substitui escuta, responsabilidade ou a capacidade de respeitar alguém fora da ficção.

Como ler personagens complexos sem cair na armadilha da romantização

Experimente mudar a qualidade das perguntas enquanto lê. Em vez de decidir rapidamente se a figura é boa ou má, investigue quem narra a história e o que fica de fora. Observe se há consequências para as escolhas, se o conflito muda as pessoas envolvidas e se a obra diferencia desejo de posse. Pergunte também quando seu próprio fascínio nasce da escrita, do mistério ou de expectativas aprendidas sobre amor e sofrimento.

Os estudos sobre identificação e sobre narrativas de anti-heróis citados acima ajudam a entender como perspectiva narrativa, identificação e julgamento moral contribuem para nossa resposta aos protagonistas. Não existe uma fórmula de leitura correta para toda obra, mas existe diferença entre deixar-se envolver e abandonar a própria capacidade crítica. Se a ideia é usar a leitura como ferramenta de reflexão, vale conhecer também 7 livros sobre relacionamentos para não confundir intensidade com amor.

E vale lembrar: personagens gentis não são necessariamente rasos, assim como personagens cruéis não são automaticamente sofisticados. Às vezes, a atitude mais revolucionária de um protagonista é saber conversar. A literatura de qualidade suporta esse tipo de ousadia também.

Afinal, por que não conseguimos esquecê-los?

Porque personagens moralmente ambíguos nos colocam diante de uma dificuldade profundamente humana: nem toda história oferece uma absolvição confortável, nem toda ferida explica uma escolha e nem toda pessoa cabe num único adjetivo. Eles nos obrigam a pensar sobre responsabilidade e desejo sem nos presentear com respostas fáceis.

O que torna um personagem memorável não é o tamanho de seus pecados, mas a precisão com que o autor constrói suas contradições. A boa ficção não pede que o leitor assine um termo de concordância. Pede atenção. O resto, inclusive a indignação, faz parte da leitura.

E ainda bem. Se quiséssemos apenas personagens impecáveis, bastaria ler a biografia que as pessoas escrevem sobre si mesmas nas redes sociais.

Perguntas frequentes sobre personagens moralmente ambíguos

O que é um personagem moralmente ambíguo?

É uma figura ficcional cujas ações e motivações misturam aspectos moralmente positivos e negativos, tornando inadequada uma classificação simples como herói ou vilão.

Qual a diferença entre anti-herói e vilão?

O anti-herói costuma ser protagonista sem as virtudes heroicas tradicionais. O vilão geralmente exerce uma função de oposição, embora também possa protagonizar narrativas. Há sobreposições entre os conceitos.

Gostar de um vilão significa concordar com ele?

Não. Apreciar a construção de um personagem, compreender seus motivos e aprovar suas atitudes são experiências diferentes.

Por que o dark romance atrai tantos leitores?

Para parte do público, a atração pode envolver tensão, transgressão, suspense e exploração de fantasias em ambiente ficcional. Não existe uma explicação única aplicável a todos os leitores.

É errado achar Heathcliff ou Dorian Gray fascinantes?

Não. Fascínio literário não equivale à aprovação de todos os comportamentos de uma personagem. Uma leitura crítica examina inclusive aquilo que incomoda.

Ler ficção melhora a empatia?

Há estudos e hipóteses relevantes, mas resultados de experimentos e replicações são mistos. Não é correto prometer um efeito automático.

Como reconhecer quando uma narrativa romantiza abuso?

Observe se controle, coerção e violência são tratados como provas desejáveis de amor, se há consequências e se o texto permite enxergar a autonomia das pessoas envolvidas. Interpretações podem variar, mas consentimento continua essencial fora da ficção.

A Madame pergunta

Quando um personagem nos fascina apesar de tudo, estamos admirando sua coragem, tentando decifrar suas sombras ou apenas gostando da liberdade de fechar o livro quando a história fica perigosa?

Referências

Fontes consultadas em outubro de 2026.

  1. KRAKOWIAK, K. M.; OLIVER, M. B. When Good Characters Do Bad Things: Examining the Effect of Moral Ambiguity on Enjoyment. Journal of Communication, 2012. Acessar.
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  12. BRONTË, Emily. O Morro dos Ventos Uivantes. 1847. Obra literária primária.
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  15. HIGHSMITH, Patricia. O Talentoso Ripley. 1955. Obra literária primária.